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MARILICE COSTI:
OS BENEFÍCIOS DA CONCISÃO
O leitor está diante de uma escritora que tem o que dizer e sabe como
fazê-lo, o que não é pouco e é suficiente. O conto, que já viveu seu
esplendor como gênero, foi abandonado por todos, mas quão delicioso é
descobrir quem saiba contar direito uma história curta. Este é o caso de
Marilice Costi, mais uma das tantas amostras do momento decisivo de
nossas letras, ocorrido no século passado, quando a mulher passou de
personagem a autora.
O
mundo está sempre desarrumado para os personagens de Marilice Costi.
Também parecem desarrumados seus sentimentos de narradora preocupada com
o destino das criaturas que fazem coisas do arco-da-velha nessas
narrativas curtas muito bem ordenadas.
Quando se deslocam do interior para a capital, repetindo o velho trajeto
do campo para a cidade, que marcou todas as literaturas do mundo, o que
mais apreciamos nela é a cor local, de que é exemplo De Boas
Referências, o conto que abre este livro.
A moça, apresentada como de boas referências, não demora a sofrer os
impactos do brutal descenso, quando cai das platitudes das vilas no
abismo da grande cidade. Com apenas catorze anos, é estuprada pelo filho
da patroa. Ele, bêbado e bruto, rouba-lhe a virgindade. Grávida, adentra
então a um caminho de todos conhecido, buscando um aborto que pode levar
mãe e filho à morte ou então preservar apenas uma ou as duas vidas para
mais sofrerem, como se, em vez de viver, cumprissem penas perpétuas.
O destino para uma delas, algum tempo depois: “O grupo dos alcoólatras
anônimos se reunia todos os sábados à noite perto de sua casa.
Acompanhou-a na primeira vez. Quem sabe era o caminho? Ela era
caprichosa”.
E
mais adiante lemos: “Quando não bebia, carregava na sua hiperatividade a
viuvez prematura de um homem que ela julgava bom, que dormia com o
revólver sob o travesseiro e que a supria. O marido morrera dirigindo
uma carroça, atropelado por uma jamanta no caminho para Marau. Ela
assistira a tudo, inerte”.
E no desfecho ma triste despedida: “Na janela, Jane viu o rosto
esquálido sorridente e um abano. Da calçada, leu o movimento dos lábios
dela: pode me esperar, que eu volto, mãezinha. E fez dois círculos com o
dedo indicador próximo à cabeça quando formou no ar uma espiral” .
Em Caso Proibido comprovamos a melhor qualidade desta contista: a
concisão. Com objetividade, sem perder o rumo, resume uma bela história
de amor entre Lauro e Matilde, recuperando um gosto dos antigos, de
procurar os valores da rotina, hoje muito esquecido. Com efeito, aurea
mediocritas, a bela expressão criada por Horácio, veio a designar o modo
de vida do imbecil, do ignorante, como se o ponto médio e o equilíbrio
fossem coisas deploráveis. Com sagacidade, Marilice Costi apresenta o
seu contencioso, mostrando nestas e em diversas outras narrativas, o
quanto a felicidade deve a uma vida estável.
Em
História em Ruínas, Gilberto passa de diplomata a perseguido político
que busca a proteção umbrosa da clandestinidade, daí a mendigo, em
rápidos parágrafos. Perde o amor, perde tudo, mas é visto dançando na
praça depois da famosa campanha que buscou recuperar o direito de uma
geração inteira da qual tinham roubado o direito de votar para
presidente da República. Mas sua Isabel, em que caminhos se extraviou?
Nem falta a sutil alusão ao passado jesuítico que impregna o Brasil
meridional há tantos séculos, como lemos: “Mas quando as Diretas Já
explodiram na rua, ele foi encontrado dançando no Parque do Trabalhador.
Vestia um traje guarani e escrevia em esperanto. Esperando sempre que
Isabel, que voltara para o interior, o encontrasse. Quando ele saísse da
guerrilha, os jesuítas aceitariam Isabel no grupo. Ela era artista, ele
sabia que a arte missioneira só tinha a ganhar com ela”.
Enfim, não precisamos tomar toda a sopa da panela para ver se está boa
de sal, se tem gosto de boa comida. Narrativas como esta não devem ser
devoradas como as rápidas leituras de livros que insistem em fazer com
que o leitor se ajude a si mesmo. Não é o caso. Curtamos devagar, em
goles comedidos, como se faz com um bom vinho, estes contos, igualmente
amadurecidos sem o tormento do prazo.
(a)Deonísio da Silva |